É pecado não dizer “A Paz do Senhor”? Entenda a origem do costume e o que a Bíblia realmente ensina
Muitos cristãos já se perguntaram se é pecado não saudar o irmão com “A Paz do Senhor”. Em algumas igrejas, principalmente pentecostais, a expressão se tornou tão comum que parece uma regra espiritual. Mas será que a Bíblia exige isso? Será que todo crente é obrigado a usar exatamente essa frase? Este artigo busca esclarecer essas dúvidas de forma calma e respeitosa, para evitar julgamentos desnecessários entre irmãos.
Antes de tudo, queremos afirmar com clareza: não rejeitamos a paz de Deus, nem criticamos quem usa essa saudação com sinceridade. Pelo contrário, achamos linda e cheia de significado. Apenas entendemos, à luz da Bíblia e da história, que não existe mandamento bíblico obrigando o cristão a dizer “A Paz do Senhor”. Podemos cumprimentar com “Bom dia”, “Boa noite”, “Deus te abençoe”, um abraço caloroso ou até um simples sorriso. Isso não diminui nossa fé, nossa comunhão nem nossa identidade em Cristo.
Um aspecto importante para nós é evitar criar uma separação artificial entre “crente” e “não crente”, ou entre “de dentro” e “de fora”. Em cultos com visitantes, novos convertidos ou pessoas que estão conhecendo a igreja pela primeira vez, a expressão pode soar como uma “senha interna” ou um marcador de grupo. Isso às vezes gera desconforto e pode até afastar quem está chegando. Preferimos saudações naturais, acolhedoras e compreensíveis para todos — exatamente como Jesus ensinou: “E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” (Mateus 5:47). Nossa saudação deve aproximar, não distinguir.
A origem do costume: relativamente recente
O uso generalizado de “A Paz do Senhor” entre evangélicos brasileiros é um fenômeno moderno. Ele se popularizou principalmente nas Assembleias de Deus após a Convenção Geral de 1943, realizada na Assembleia de Deus em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Naquele encontro, durante a Segunda Guerra Mundial (quando muitas convenções foram suspensas), os líderes discutiram qual seria a saudação preferida para os assembleianos em todo o país. A expressão “A Paz do Senhor” foi sugerida e escolhida pela maioria, mas não foi imposta como regra dogmática — apenas recomendada como preferência, sem excluir outras formas de cumprimento.
Antes disso, os missionários suecos (Gunnar Vingren e Daniel Berg) e os primeiros crentes usavam variações como “Paz de Deus” ou outras expressões simples. A escolha por “do Senhor” (referindo-se a Jesus) também ajudou a diferenciar as Assembleias de Deus da Congregação Cristã no Brasil (mais antiga no país, de origem italiana), que desde o início do século XX usa “A Paz de Deus” (tradução de “Pace di Dio”).
Portanto: não é um costume apostólico, nem algo que veio diretamente dos discípulos de Jesus. Trata-se de uma decisão denominacional dos anos 1940, inspirada em passagens bíblicas, mas adaptada ao contexto brasileiro. Por isso, muitas igrejas de outras tradições (batistas, presbiterianas, independentes etc.) nunca adotaram essa saudação como padrão.
O que a Bíblia realmente ensina sobre saudações
A Escritura é rica em exemplos de saudações, mas nunca estabelece uma fórmula única e obrigatória para todos os tempos e lugares:
– Jesus, após a ressurreição, disse aos discípulos: “Paz seja convosco” (João 20:19,21) — uma saudação poderosa e cheia de significado.
– Ao enviar os discípulos, instruiu: “Em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa” (Lucas 10:5).
– Paulo iniciava quase todas as cartas com: “Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1:7; 1 Coríntios 1:3 etc.).
– O apóstolo também exortou: “Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo” (Romanos 16:16; 1 Coríntios 16:20) — o “beijo santo” era o costume cultural da época, equivalente ao nosso abraço ou aperto de mão hoje.
O foco bíblico está no amor sincero e na comunhão verdadeira, não na frase exata. Jesus condenou os fariseus justamente por transformarem tradições humanas em leis pesadas (Mateus 15:9; Marcos 7:7-8). Não há versículo que diga: “Todo crente deve dizer ‘A Paz do Senhor’ ao encontrar outro crente”.
Por que não adotamos como obrigatoriedade?
1. Não é mandamento bíblico — é um costume humano bom, mas não doutrina.
2. A Bíblia dá liberdade — podemos usar qualquer expressão respeitosa e afetuosa que venha do coração.
3. Evitamos transformar tradição em lei — para não cair no erro que Jesus criticou.
4. Queremos saudações acolhedoras para todos — sem barreiras para visitantes ou novos irmãos.
5. O essencial é a comunhão real — não a fórmula verbal.
Sem afronta, sem questionamento à espiritualidade de ninguém
Quem usa “A Paz do Senhor!” não está errado. A expressão é linda, tem base bíblica e transmite desejo de bênção genuína. Muitos irmãos a usam com todo o coração, e nós os respeitamos profundamente. Da mesma forma, quem não usa também não está sendo “frio”, “sem unção” ou “menos espiritual”. É apenas uma diferença de costume, não de fé. Não estamos julgando, condenando ou criando divisão — apenas explicando, biblicamente, por que não sentimos necessidade de adotar essa prática como regra na nossa congregação.
No fim das contas, a verdadeira paz não está na saudação, mas em Cristo, o Príncipe da Paz (Isaías 9:6). Seja “A Paz do Senhor”, seja “Boa noite, irmão”, o que importa é que nosso cumprimento reflita o amor de Jesus.
Que a paz de Deus, que excede todo entendimento, guarde nossos corações e nossas mentes em Cristo Jesus (Filipenses 4:7). Amém!
Paulo Eduardo
(Artigo baseado em relatos históricos das Convenções das Assembleias de Deus, como a de 1943, e em estudo direto das Escrituras — João 20, Lucas 10, Romanos 16, Mateus 5 etc.)







